EBR introdução

Introdução ao Modelo Econômico Baseado em Recursos.

Olá, e sejam bem-vindos a esta “Introdução a um Modelo Económico Baseado em Recursos”.

O objetivo desta breve apresentação é explicar a linha de raciocínio que nos permite chegar a este modelo econômico, que não se baseia na circulação de dinheiro ou comércio, mas sim na gestão inteligente dos recursos da Terra com base no entendimento científico que temos do mundo natural de forma a concluir quais os métodos mais eficientes, estratégicos e sustentáveis de satisfazer as necessidades da população humana.

Assumo que quem aqui está hoje presente sabe que nós temos graves problemas económicos, sociais e ambientais. Somos chamados a competir mais, a vender mais, a produzir mais, para um sistema socioeconómico que trabalha para transformar a vida deste planeta em dinheiro. Temos de reavaliar as nossas intenções, enquanto espécie, neste planeta.

Parte 1

Para começar então, vamos considerar as seguintes questões:

Quais são os fundamentos imutáveis da saúde humana e da prosperidade?

Como é que podemos construir um sistema que atenda a essas necessidades para toda a população humana?

– Considerando, claro, que vivemos num planeta finito.

E ao mesmo tempo, como é que asseguramos a sustentabilidade deste habitat para as futuras gerações?

Para responder a estas questões, vamos em primeiro lugar considerar a necessidade humana em si.

Existe um conjunto praticamente universal de necessidades comuns a toda a espécie. É óbvio que se não obtivermos nutrição adequada, comida, ar e água, deixaremos de existir passado algum tempo. Se formos expostos a substâncias que são quimicamente tóxicas à nossa biologia, é provável que fiquemos muito doentes.

Se sofrermos uma deficiência de vitaminas durante a infância existe a probabilidade de que a nossa saúde sofra com isso, seja um crescimento anormal ou problemas de imunidade. Mas, com o avanço das ciências humanas descobrimos que as necessidades humanas não se limitam a este nível básico, facilmente observável.

Nós somos organismos biopsicossociais, o que significa a nossa saúde só pode ser corretamente avaliada tendo em conta os fatores biológicos, psicológicos e sociais com os quais interagimos. Estamos todos socialmente e ambientalmente ligados de uma forma muito real e multifacetada.

Se a nossa intenção enquanto sociedade for produzir seres humanos equilibrados física e psicologicamente, toda a sociedade deve estar concebida para satisfazer essas necessidades, e adaptar-se à medida que os nossos entendimentos mudam e o conhecimento progride.

Tento isto em mente, façamos as próximas perguntas: como é que projetamos uma sociedade que realmente suporte a espécie humana ao mesmo tempo que mantém o equilíbrio ambiental?

É aqui que entramos no conceito de um Modelo Econômico Baseado em Recursos, que é uma resposta inferida a partir das leis naturais que nos governam, para calcular a melhor maneira de atender o espectro das necessidades humanas da forma mais eficiente e sustentável possível; tendo em conta o que realmente nos sustenta, ou seja, uma relação simbiótica com esta biosfera delicada que todos partilhamos.

E o método mais adequado para compreender o mundo natural e as suas leis é, até hoje, o método científico. A ciência é única pois os seus métodos obrigam não só a que as ideias propostas sejam testadas e replicadas, mas tudo o que a ciência origina é também inerentemente falseável. Não se prende a nada e evolui constantemente.

A partir desta inferência lógica somos capazes de organizar a sociedade com muito pouca necessidade de agir com base em mera opinião humana, o modelo torna-se quase auto evidente quando estes parâmetros são assumidos, isto se o nosso objetivo coletivo for maximizar a nossa sustentabilidade e eficiência económica.

Agora, existem três fundamentos econômicos a considerar, que são:

A Contabilidade de Recursos, o Equilíbrio Dinâmico e o Design Estratégico.

Quanto à Contabilidade de Recursos: vivemos numa biosfera planetária praticamente fechada com um conjunto limitado de recursos à nossa disposição. Dada esta realidade, a lógica torna-se bastante evidente quanto à nossa responsabilidade, se quisermos que o nosso habitat se mantenha para as gerações futuras e satisfaça as necessidades da população, temos de organizar, contabilizar e preservar.

Uma adequada alocação económica de recursos só pode ser feita se tivermos uma clara compreensão dos recursos que temos disponíveis e onde eles estão localizados, de forma completa e unificada. Portanto temos de fazer um levantamento completo de todos os recursos do planeta.

Com tempo, este entendimento vai conduzir-nos ao que poderíamos chamar de a “Capacidade de Suporte da Terra”, que é uma informação bastante vital e precisa de ser compreendida se quisermos viver em verdadeira harmonia com o planeta, pois permite-nos ter uma visão mais clara das nossas possibilidades e necessidades e assim chegar a decisões mais apropriadas.

Mas esta contabilidade é apenas o primeiro passo; precisamos também de saber as taxas de mudança e de regeneração, quando aplicáveis. A tal chamamos de Equilíbrio Dinâmico.

O “Equilíbrio Dinâmico” ocorre quando dois processos opostos se processam à mesma velocidade.

Um exemplo clássico desta questão hoje é a desflorestação. As árvores têm um ciclo e taxa de crescimento natural e se o nosso uso de madeira excede as taxas de regeneração natural – que é o que acontece hoje -temos um problema porque é, por definição, insustentável.

Atualmente estimasse que se consumem em 8 meses os recursos que o planeta é capaz de regenerar num ano, e isto sem contar com os recursos que não são renováveis. Ou seja, ultrapassámos a capacidade de carga do planeta neste aspecto e, portanto, estamos efetivamente a desgasta-lo e a comprometer as futuras gerações.

Há, até certo ponto, um equilíbrio no mundo físico que dita as possibilidades que organismos têm para sobreviver através dos recursos disponíveis. E neste sentido a natureza é uma tirania, a única à qual temos de nos realmente submeter.

Saliento que o modelo de mercado monetário tem como prioridade o lucro e requer o máximo consumo possível, de forma a manter a crescente população empregada e a economia operacional. Isto é, obviamente antieconômico e um puro Eco Suicídio. O requisito fundamental de uma verdadeira economia é economizar ou ser estrategicamente eficiente e conservador, e não é isso que acontece.

Com estes 2 fundamentos, A Contabilidade de Recursos e O Equilíbrio Dinâmico, temos as bases para aquilo a que chamamos de “sistema de gestão de recursos” e podemos assim começar a pensar na produção.

E isto leva-nos ao 3º fundamento, que é o Design Estratégico.

Atender de forma eficiente o espectro de necessidades humanas num planeta finito de forma sustentável, implica uma alocação de recursos optimizada, estrategicamente de forma conservadora.

Hoje, isto não é feito – ou podemos dizer que é feito ‘às calhas’ através de arbitrárias operações monetárias, que têm a ver com o poder de compra do produtor e do consumidor, ao invés de se ver qual é a utilização mais cientificamente estratégica e eficiente.

Atualmente, a introdução de novos produtos e serviços deve ser constante, independentemente da sua utilidade funcional, de forma a sustentar a economia.

Assim, nada fisicamente produzido pode manter um tempo de vida operacional maior do que o suportável pelo produtor de maneira a manter a sua integridade económica através do consumo cíclico, o que por si incentiva o produtor a criar um produto com menos tempo de vida.

Para além disto, as despesas devem de ser minimizadas em todas as fases da produção, de forma a garantir um preço mais barato do que a competição. Isto leva a que os produtos sejam intrinsecamente obsoletos por tornar impossível às empresas produzirem o melhor de algo. Portanto, a sustentabilidade e eficiência dos produtos é inversa ao crescimento económico e as lixeiras são o resultado visível disto.

Maximizar o tempo de vida de um produto e desenvolver um método a ser utilizado no momento da eventual avaria, e, portanto, reciclagem, são elementos que precisam de ser considerados na concepção inicial, sem a interferência do sistema de mercado e do corte de custos que servem como inibidores de um design realmente sustentável.

É necessário também ter em conta as consequências negativas que a produção ou utilização de certos recursos podem trazer, para garantir a nossa segurança. Assim, seguindo princípios de cradle-to-cradle, no que toca aos materiais, estes dividem-se em duas categorias, a dos materiais técnicos e a dos biológicos.

Nutrientes técnicos são materiais sintéticos, não tóxicos, que visam ser utilizados em “produtos de serviço”, e podem ser reciclados continuamente sem que percam qualidades, tais como metais ou plásticos. Nutrientes biológicos são materiais orgânicos que visam ser utilizados em “produtos de consumo” e que depois de utilizados são decompostos e reintroduzidos na biosfera sem a afetar negativamente.

Trata-se de fazer o que é mais cientificamente correto. Não o que alguma empresa pode pagar para se manter competitiva no mercado. Precisamos de uma estratégia de contabilização, alocação, e design a partir de parâmetros técnicos comprovados, que nos garantam a máxima eficiência e sustentabilidade. Menos que isto é, simplesmente, negligente.

Para sumarizar, a saúde pública (ou seja, atender às necessidades biopsicossociais humanas) e a gestão inteligente e sustentável da Terra e dos seus recursos são a derradeira medida de avaliação para qualquer sistema social.

Parte 2

Portanto, Contabilidade de Recursos, Equilíbrio Dinâmico e Design Estratégico definem as bases do modelo Econômico Baseado em Recursos. Vamos agora continuar com esta dedução…

Baseando-nos nestes 3 parâmetros, podemos chegar aos seguintes objetivos:

1- Precisamos de transitar de uma economia em constante crescimento para uma em equilíbrio.

O Equilíbrio Dinâmico não pode ser mantido numa economia de crescimento, porque o crescimento infinito é literalmente impossível num planeta finito.

2- Precisamos de um sistema colaborativo, não competitivo.

Competirmos uns com os outros pela sobrevivência, tende a gerar um tribalismo de “cada um por si”, antiético e primitivo, produzindo stress, conflito e mal-estar entre as pessoas. E o Design Estratégico não pode ser atingido enquanto existir uma preocupação em cortar custos. Na verdade, pura e simplesmente, a eficiência monetária é em muitos casos inversa à eficiência tecnológica.

3- Precisamos de um sistema planeado, projetado, pensado…

Um sistema que tenha em conta a Alocação de Recursos, o Equilíbrio Dinâmico e o Design Estratégico, de forma explícita. O disperso e ‘às calhas’ sistema empresarial atual está longe disto e a falta de eficiência e desperdício são simplesmente inaceitáveis.

4- Automação é colocada à frente do trabalho humano, a todos os níveis.

Isto entra na componente de Design Estratégico. Não só nos limitamos a projetar os bens de consumo com a máxima eficiência, mas também os próprios métodos de produção destes bens precisam de ser igualmente estratégicos, de forma a maximizar a precisão e os resultados.

Para surpresa de muitos, a produtividade é agora inversa ao emprego, na maioria dos sectores estudados, o que significa que é socialmente irresponsável não automatizar, uma vez que isto nos pode ajudar a criar abundância.

5- Por último, passamos de um sistema baseado na propriedade para um sistema baseado no acesso, e, por consequência, a remoção da troca monetária.

Há uma diferença muito grande entre o estado atual das coisas, e a escassez intrínseca do passado.

Atualmente possuímos tecnologias de produção que nos permitem aquilo a que chamamos de “abundância de acesso”, ou um sistema de alocação de recursos que poderia permitir o acesso livre e universal a todos os bens e serviços, sem a necessidade de qualquer pessoa usar dinheiro.

Em vez de termos uma abordagem de investimento baseada na propriedade e no valor, o que exige armazenamento e proteção, projetamos um sistema de acesso intercambiável, à semelhança de um sistema de aluguel ou uma biblioteca, como se vê hoje.

Numa sociedade onde, por exemplo, eu utilizo o meu carro por apenas algumas horas por semana no máximo, fará sentido, do ponto de vista da eficiência, eu armazenar este veículo, ficando este sem ser utilizado 90% do mês?

Se estendermos esta ideia para todo o sector dos produtos, chegamos à conclusão que podemos, de fato, reduzir a produção e o uso de recursos, criar mais eficiência e permitir ao mesmo tempo um maior acesso de bens à população quando preciso. O termo aqui é ‘Acesso Estratégico’.

Para muitos é difícil pensar numa sociedade baseada no acesso, dado o materialismo a que temos sido educados, que serve para apoiar o consumo excessivo que perpetua o sistema de mercado e, por consequência, a oferta de trabalho e tudo o resto. Mas a eficiência deste conceito, quando todos os outros requisitos são removidos – os falsos requisitos do sistema monetário -se feito corretamente, a eficiência desta abordagem é simplesmente incomparável.

A ‘procura e oferta’ seriam acompanhadas dinamicamente de forma evitar excedentes ou escassez, e utilizando as formas mais avançadas de automação e tecnologias de distribuição, a conveniência poderia ultrapassar largamente aquilo que a maioria do mundo conhece hoje.

Com isto concluímos que o dinheiro já não seria necessário num mundo com abundância de acesso.

Posto tudo isto, ficamos assim com a sumarização básica dos principais atributos do Modelo Económico Baseado em Recursos. É perfeito? É Utopia? Não. Mas seria vastamente melhor do que o que temos hoje, que continuamente nos prejudica, e destrói o nosso ambiente e tudo indica que vai ficar muito pior.

Existe muito mais informação sobre a Economia Baseada em Recursos, e se estiverem interessados, visitem o nosso site ou contatem-nos. Espero que tenham gostado e muito obrigado.