“A ganância e a competição não são resultados de um temperamento humano imutável. (…) A ambição e o medo da escassez estão de fato sendo continuamente criados e ampliados como resultados diretos do tipo de moeda que estamos usando. (…) Nós podemos produzir mais do que o bastante para alimentar todos. (…)  Mas é evidente que não existe dinheiro suficiente para pagar por tudo isso. A escassez está em nossas moedas nacionais. Na realidade, o papel do banco central é criar e manter a escassez monetária. A conseqüência direta é que temos de lutar uns com os outros para sobrevivermos.“ 

– Bernard Lietaer, designer do sistema monetário dos Estados Unidos da América

A pobreza, o crime, a corrupção e a guerra são causadas pelas neuroses e escassez criadas pelo sistema econômico vigente. Embora os crimes não-monetários geralmente nasçam do ego, da inveja, de privações emocionais e outros problemas psicológicos de hoje, a frequência deles não é nada comparada aos crimes cometidos que são motivados pela aquisição de dinheiro e propriedades. Na verdade, se definirmos “crime” como “corrupção” e “corrupção” como “perversão moral, desonestidade”, surge então uma nova perspectiva, pois, se olhar bem de perto, verá que praticamente todo ato estratégico visando o ganho monetário é corrupto na sua construção – é apenas tido como normal pela cultura condicionada, em qualquer grau considerado tolerável supostamente por consenso.

Por exemplo: quando se vai ao supermercado e compra uma caixa de cereais, 90% das vezes a quantidade de cereal ocupa apenas 60% do espaço dentro da caixa. Esta ‘estratégia publicitária’, como diria a companhia produtora, é na realidade uma grande e desnecessária mentira. As agências de publicidade, com todas suas tácticas de manipulação social, estão provavelmente entre as instituições mais corruptas do planeta. Infelizmente, fomos condicionados a chamar a isto ‘promoção’ ou ‘estratégia’.

Agora, para colocarmos o espectro da corrupção monetária numa perspectiva funcional, vamos dividir esse comportamento aberrante em três classificações: crimes gerais, crimes corporativos e crimes governamentais.

Os crimes gerais são derivados da busca por dinheiro, abrangem desde pequenos roubos, vendas ilegais, fraudes, até roubos violentos. A esse subproduto do sistema monetário muitas vezes não é dada a atenção necessária para compreender sua origem, uma vez que muitos tendem a rejeitar esses “criminosos” como se eles fossem algum tipo se anomalia social, em vez de relacionar seus motivos à necessidade de sobrevivência. O estresse inerente e outros efeitos colaterais relacionados a privações são também negligenciadas.

O estudo “Merva-Fowles”, realizado na Universidade de Utah nos anos 90, encontrou fortes ligações ente o desemprego e o crime. A pesquisa foi baseada nas 30 maiores áreas metropolitanas, totalizando mais de 80 milhões de habitantes.
Os resultados mostram que um aumento de 1% no desemprego resulta em:

  • Aumento de 6,7% nos homicídios;
  • Aumento de 3,4% nos crimes violentos;
  • Aumento de 2,4% nos crimes possessórios.

Durante o período de 1990 a 1992, isso se traduziu em:

  • Mais 1459 homicídios;
  • Mais 62, 607 crimes violentos;
  • Mais 223,500 crimes possessórios.

Se você pegar uma pessoa abastada, ética e “íntegra”, despi-la de sua riqueza e jogá-la numa cidade pobre com apenas a roupa do corpo, há uma grade possibilidade dessa pessoa começar a mentir, trapacear e roubar para sobreviver.

Não é de se espantar que os vizinhos mais pobres das capitais mantenham as maiores taxas de criminalidade. Uma pessoa que nasce num ambiente escasso com poucos recursos, uma educação fraca e poucas oportunidades de emprego, fará o que for preciso para sobreviver.

A questão é que a privação econômica (escassez), e não as supostas “tendências ao crime”, é que cria esse tipo de comportamento aberrante.

Os crimes corporativos, que quase sempre são exclusivamente relacionados ao lucro, tomam muitas formas: obsolescência planejada, manipulação de mercado, terceirização, congelamento de preços, conluio monopolizador, exploração de mão de-obra e conluio governamental são apenas alguns.

Da decisão da Enron de desligar as usinas de energia elétrica da Califórnia, à distribuição proposital da Bayer Corporation de medicamentos infectados com HIV, passando pelos despejos de lixo tóxico nos rios, deve ficar claro para a maioria das pessoas que o crime corporativo é constante e muitas vezes mais insidioso que os “crimes gerais”, pois a repercussão deles tendem a afetar enormes grupos de pessoas.

A necessidade de assegurar a rentabilidade de um negócio do “criminoso corporativo” não é basicamente diferente da necessidade de sobrevivência do “criminoso geral”. Enquanto o último normalmente comete crimes para sobreviver, o primeiro o faz para garantir ainda mais sua posição de poder, estilo de vida e riqueza. Isso se baseia no medo.

O conceito de “ganância”, que se manifesta a partir de uma insegurança contínua derivada do medo de perder o que possui, serve como fatores motivadores para a maioria dos crimes corporativos. É como um vício. Quanto mais você ganha, mais deseja ganhar. Essa neurose é perpetuada/reforçada pela estratificação social que o sistema monetário cria, pois há uma progressão incessante de “luxúrias” disponíveis à medida que o poder de compra de alguém aumenta (por exemplo: mansões, iates, limusines, diamantes, terrenos, etc.).

Os crimes governamentais são umas das mais complexas e difíceis formas de conduta a se considerar, já que a percepção do governo é bastante modificada pelos valores predominantes que essa “classe dominante” perpetua através da sociedade, via mídia de massas e jingoísmo tradicional.

Em outras palavras, se nos recordarmos dos horrores de Hitler, muitos geralmente se esquecem de que muitos dos alemães também mantiveram o sistema de valores anti-semita, propagado pelo regime por meio de panfletos e transmissões. Pode-se dizer o mesmo sobre a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que foi primeiramente incentivada pelo apoio público, apenas por causa do ódio e medo dos supostos “terroristas islâmicos”, gerado pelos ataques em 11 de setembro de 2001.

Dito isso, vamos por de lado nossos valores tradicionalistas de lealdade e “patriotismo” e dar uma olhada objetiva no que realmente é e representa o governo dentro de um sistema monetário.

Em primeiro lugar, todos os membros do governo devem receber um salário e todos os projetos devem ser financiados. Essa verba vem aparentemente dos “impostos” que o povo é obrigado a pagar, ou empréstimos de bancos ou outros governos. Os impostos são gerados através do “comércio” ou “rendimento comercial”, enquanto os empréstimos devem ser devolvidos com dinheiro manifestado de outro modo senão mais comércio, mais empréstimos ou mais impostos, teoricamente.

A função central do governo é inventar uma legislação regulatória para lidar com o funcionamento da sociedade. Idealisticamente, os interesses gerais do povo seriam a prioridade número um do governo. Infelizmente, como mostra a história, não é esse, e raramente foi, o caso.

Antes, o governo como o conhecemos é na realidade uma “empresa-mãe” para todas as outras corporações ativas dentro da economia de um país. Isso, é claro, faz sentido uma vez que o valor de uma nação é de fato determinado pela condição de sua economia. Isso significa que o governo tem um “grande interesse” na situação econômica de sua nação, mais especificamente um interesse naqueles de sua própria classe – a abastada classe alta.

Um “interesse” ou uma pessoa ou grupo tendo algo a ganhar ou perder devido a uma decisão governamental é uma estrada de duas vias. Um político pode receber “contribuições” em dinheiro de uma companhia que ele favorece em suas decisões, enquanto a companhia ganha assim pelas decisões que ele tomou a seu favor.

Nos EUA, por exemplo, lobbing e “contribuições” constituem bilhões de reais por ano e esse dinheiro é totalmente concebido sobre o pretexto de “colocar em ação as agendas” das partes contribuintes.

Embora sejam muitos os exemplos de conluio governamental e corporativo, abrangendo desde a permissão de medicamentos não testados pela FDA, até o sucesso das petrolíferas em tirarem do mercado os carros elétricos (que seriam um grande passo no desenvolvimento sustentável), o maior crime monetário do governo é seu ato de fazer uso da guerra (seja qual for o tipo e onde) para o benefício de seus constituintes corporativo-financeiros.

Mas o problema é a falta de repressão? Ou é um problema estruturalizado?

As classificações de “corrupção” acima são apenas um agrupamento generalizado. Muitas nuanças de comportamento humano no dia-a-dia são também muito envenenadas por esse mecanismo de lucro; desonestamente estendendo-se da “arte de negociar” onde duas pessoas de negócio competem entre si por interesse próprio, com uma indiferença inerente para com o outro, à desarmonia construída na relação patrão-empregado, onde um quer maximizar o trabalho para reduzir os pagamentos por hora, enquanto o outro busca maximizar o tempo gasto a fim de ganhar mais dinheiro.


 

A conclusão é que a prioridade em lucrar causa uma mentalidade dualista de “nós contra eles”, pois, dentro do sistema monetário, tem de haver um vendedor-comprador; um trabalhador-patrão; um cliente-dono; um rico-pobre. Dada essa realidade, cada parte é forçada a criar condições que sejam as mais lucrativas a ela, por isso estão sempre buscando estratégias de modo que uma incessante batalha está em furor. Estamos em constante guerra uns com os outros para viver. Essa batalha cria muito pouco em termos de progresso humano sustentável, e o mundo doente, poluído e distorcido que você vê ao redor é o resultado.

Por andejos